{"id":20051,"date":"2023-07-01T15:34:28","date_gmt":"2023-07-01T18:34:28","guid":{"rendered":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/?p=20051"},"modified":"2023-07-01T15:34:28","modified_gmt":"2023-07-01T18:34:28","slug":"carta-aberta-ao-sindicato-dos-jornalistas-profissionais-do-estado-do-piaui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/carta-aberta-ao-sindicato-dos-jornalistas-profissionais-do-estado-do-piaui\/","title":{"rendered":"Carta aberta ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Piau\u00ed"},"content":{"rendered":"<p>A CIPE, atrav\u00e9s desta carta, gostaria de responder, de forma construtiva e civilizada, atrav\u00e9s do di\u00e1logo, \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o deste sindicato a respeito de reportagem veiculada no portal GP1 com rela\u00e7\u00e3o ao triste caso de Dr. Eduardo Guimar\u00e3es Melo.<\/p>\n<p>Voc\u00eas est\u00e3o certos. E tamb\u00e9m est\u00e3o errados.<\/p>\n<p>Est\u00e3o certos, pressupostos b\u00e1sicos do jornalismo foram cumpridos. Trata-se de uma not\u00edcia sem mentiras, trata-se de um fato de interesse, a manifesta\u00e7\u00e3o do lado de nosso colega foi incorporada, embora tardiamente.<\/p>\n<p>Mas est\u00e3o errados tamb\u00e9m. Not\u00edcias curtinhas, impactantes e pouco profundas podem ser um problema grave. Argumentamos aqui, talvez tardiamente.<\/p>\n<p>Primeiro porque imprensa \u00e9 fundamental para a democracia, e deve ser a melhor poss\u00edvel para cumprir esta fun\u00e7\u00e3o. Depois, porque not\u00edcias sobre casos mal sucedidos e, incrivelmente, bem sucedidos tamb\u00e9m, t\u00eam feito um enorme mal \u00e0 medicina e aos m\u00e9dicos. Medicina n\u00e3o \u00e9 feita de protocolos \u00e0 venda e resultados garantidos, \u00e9 feita de pessoas tratando pessoas. As que tratam s\u00e3o t\u00e3o gente quanto as que s\u00e3o tratadas. Sofrem tamb\u00e9m. Ser chamado de assassino \u00e9 uma dor imensa para algu\u00e9m normal. \u00c9 uma dor pior para algu\u00e9m que nem em seus piores pesadelos desejaria esta morte. E pode, sim, comprovadamente, levar ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Medicina cont\u00e9m incongru\u00eancias, imprevisibilidades, riscos, individualidades. Cont\u00e9m a chance de fracasso, e fracasso pode ser morte no nosso caso. Medicina tem mais zona cinzenta do que preto e branco.<\/p>\n<p>Nosso colega foi indiciado por homic\u00eddio culposo. Tradu\u00e7\u00e3o: vai ser investigado num processo porque um inqu\u00e9rito inicial, conduzido por um delegado de pol\u00edcia, certamente t\u00e3o entendido em quest\u00f5es m\u00e9dicas quanto qualquer pessoa leiga instru\u00edda, sem a participa\u00e7\u00e3o de nenhum elemento probat\u00f3rio ou dados provenientes de peritos, por enquanto. Sem ampla defesa. As palavras, sempre elas, fazem muita diferen\u00e7a. Faz muita diferen\u00e7a para um profissional, que, inclusive, vive de sua credibilidade, seja apresentado como um potencial assassino de crian\u00e7as, e n\u00e3o como um m\u00e9dico que teve um problema que vai ser investigado.<\/p>\n<p>A imprensa, de forma geral, sempre \u00e9 extremamente receptiva com as potenciais v\u00edtimas de problemas m\u00e9dicos e eventualmente as destaca, emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele. Compreens\u00edvel. S\u00e3o v\u00edtimas, mesmo quando n\u00e3o houver culpa do sistema de sa\u00fade. S\u00e3o mais fr\u00e1geis, em tese, do que os profissionais, est\u00e3o doentes, precisam se submeter a um poder maior, de quem sabe trat\u00e1-las. S\u00e3o not\u00edcias comoventes, s\u00e3o trag\u00e9dias. Pessoas leigas, acostumadas a uma vis\u00e3o de medicina moderna sempre tendem a achar que se algo deu errado algo foi feito errado. Pena que n\u00e3o seja assim, continuamos tendo limites, o ser humano continua tendo a vida finita.<\/p>\n<p>Ainda assim, algu\u00e9m razo\u00e1vel acha que um m\u00e9dico normal convive tranquilo com fracassos que envolvem sequelas? Uma pessoa normal conviveria facilmente com isso? Algum profissional deixaria de se preocupar com as consequ\u00eancias de algo assim? N\u00e3o, certamente n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 nunca considerado. \u00c9 mais f\u00e1cil, mais r\u00e1pido, e provavelmente mais eficiente como estrat\u00e9gia de criar aten\u00e7\u00e3o a uma not\u00edcia usar o clich\u00e9 v\u00edtima-malfeitor poderoso indiferente. Foi descrita a s\u00edndrome da segunda v\u00edtima, que considera as consequ\u00eancias de trag\u00e9dias com pacientes para os m\u00e9dicos. \u00c9 grave, diretamente relacionada a suic\u00eddios, burn-out e abandono do trabalho. Os \u00faltimos dados dispon\u00edveis sinalizam que a taxa de suic\u00eddios entre m\u00e9dicos \u00e9 dez vezes maior que a da popula\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es extremas todos os dias no nosso trabalho. A medicina alcan\u00e7ou progressos incr\u00edveis, enormes. \u00c9 verdade que diminu\u00edmos as chances de fatalidades ao extremo. Mas elas continuam existindo. Fatalidades raras n\u00e3o s\u00e3o fatalidades inexistentes. Algo que tem um risco de 1 em mil vai acontecer, quando houver a necessidade de atuar mil vezes. E h\u00e1 coisas muito comuns. Apendicites. Acessos venosos centrais, o caso que aconteceu com Eduardo. Num hospital de grande porte do Brasil que atenda pediatria s\u00e3o colocados em torno de 8 acessos venosos centrais cir\u00fargicos por semana. As pessoas (inclusive jornalistas) l\u00eaem risco de 0,1%, baix\u00edssimo, n\u00e3o deve ocorrer. N\u00f3s lemos \u201cproblema poss\u00edvel, cuidado\u201d.<\/p>\n<p>Para a paciente que \u2013 infelizmente \u2013 faleceu neste caso triste, o procedimento era quest\u00e3o de vida ou morte. Ela n\u00e3o sobreviveria sem ser submetida ao procedimento, ela precisava correr o risco do procedimento. Que n\u00e3o era pequeno, no caso deste tipo de cateter, no caso de uma crian\u00e7a pequena e muito doente. Isso \u00e9 uma pondera\u00e7\u00e3o importante, que n\u00e3o apareceu.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o complexa pode ter uma resposta simples \u2013 e errada. Um posicionamento jornal\u00edstico regrado e formalmente correto pode ser uma agress\u00e3o e um risco de vida sim, infelizmente, quando submete uma pessoa em estado de sofrimento \u00e0 execra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Da mesma forma que uma cirurgia de rotina pode complicar.<\/p>\n<p>N\u00e3o direi:<br \/>\nQue o sil\u00eancio me sufoca e amorda\u00e7a.<br \/>\nCalado estou, calado ficarei,<br \/>\nPois que a l\u00edngua que falo \u00e9 de outra ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Palavras consumidas se acumulam,<br \/>\nSe represam, cisterna de \u00e1guas mortas,<br \/>\n\u00c1cidas m\u00e1goas em limos transformadas,<br \/>\nVaza de fundo em que h\u00e1 ra\u00edzes tortas.<\/p>\n<p>(Jos\u00e9 Saramago)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A CIPE, atrav\u00e9s desta carta, gostaria de responder, de forma construtiva e civilizada, atrav\u00e9s do di\u00e1logo, \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o deste sindicato a respeito de reportagem veiculada no<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9255,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[92,76],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20051"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20051"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20051\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20053,"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20051\/revisions\/20053"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20051"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20051"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cipe.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20051"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}